sexta-feira, março 13, 2026

Inspeção mais rigorosa afeta embarques de soja brasileira à China

Inspeção mais rigorosa afeta embarques de soja brasileira à China

Alterações no processo de inspeção de cargas de soja nos portos feitas pelo Ministério da Agricultura comprometeram o embarque de ao menos 20 navios carregados com o grão para a China, o principal comprador do Brasil, no momento em que as exportações brasileiras ao país normalmente alcançam os maiores volumes .

Em decorrência das mudanças, a multinacional Cargill, uma das maiores empresas do agronegócio no mundo, suspendeu a exportação de soja brasileira para a China e as compras do grão para o destino, de acordo com a Reuters.


Ao menos outras duas outras tradings, Cofco Internacional e CHS Agronegócios, relataram problemas com embarques de soja, segundo documentos obtidos pelo Valor. As empresas pediram ao Ministério da Agricultura que considerasse como amostra fiscal de embarque das cargas de soja em navios no Porto de Santos (SP) a amostra recolhida e manipulada pelas empresas supervisoras.

O Ministério da Agricultura não atendeu aos pedidos de entrevista do Valor para tratar do tema.

Consultadas, a Cofco e a Cargill disseram que se manifestariam por meio da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). A CHS não respondeu às solicitações.

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Em nota, a Abiove e a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) disseram que acompanham “com preocupação” os desdobramentos relacionados à forma como o Ministério da Agricultura vem realizando análises de cargas de soja destinadas à China.

Paulo Sousa, presidente da Cargill no Brasil e do Negócio Agrícola na América Latina, disse à Reuters que o ministério tem adotado uma inspeção mais rigorosa, com amostragem própria das cargas, em vez de usar amostra-padrão que o mercado usa. A medida, disse ele, seria uma resposta a uma solicitação do governo chinês, e estaria dificultando o cumprimento de normas e a obtenção de autorização para o embarque das cargas.

Dos 20 navios aguardando análise, oito tiveram laudo positivo para sementes que não soja.

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Análise do ministério

A área técnica do Ministério da Agricultura justificou, em ofício enviado à Cargill, Cofco e CHS, que todos os procedimentos legais foram cumpridos e que, durante a inspeção física, foram identificados “vários espécimes diferentes, que foram encaminhados para análise laboratorial para confirmar a espécie”. E que os exportadores podem solicitar o envio da carga para outro destino que não tenha as pragas detectadas como impeditivo para a certificação.

O ofício da Pasta, visto pela reportagem, relata que a inspeção identificou espécies de plantas daninhas quarentenárias para a China, ou seja, que são ausentes lá. Com isso, a carga não atende aos requisitos fitossanitários exigidos, o que impossibilita a certificação fitossanitária para aquele destino.

Controle mais rígido

Frederico Favacho, sócio de Agronegócios do Santos Neto Advogados, afirmou ao Valor que o protocolo sanitário entre Brasil e China prevê um percentual ínfimo de pragas quarentenárias que podem estar misturadas a cargas de soja, algo como um grão por caminhão de soja. Segundo ele, as autoridades chinesas aumentaram as notificações nos últimos meses sobre níveis de contaminação na soja exportada e “apertaram” o governo brasileiro, que adotou o controle mais rígido.

O receio em Brasília, apurou a reportagem, é de um eventual embargo da China à soja brasileira, como ocorreu em 2004, e a abertura de margem para os chineses comprarem mais dos EUA.

Sobre a mudança no controle, Favacho explicou que, até então, empresas supervisoras homologadas pelo governo atuavam na inspeção de qualidade e sanidade com a chamada análise homogênea, em que técnicos avaliam visualmente o navio e, se não observarem irregularidades, liberam a viagem. Amostras eram colhidas e analisadas em laboratório, e o certificado era emitido.

Agora, na análise direcionada dos auditores fiscais federais, são solicitados exames mais elaborados e com número diferente de amostras de cada navio, cujos resultados demoram mais, afirmou. “A saída vai ser negociar com a China para ver se ela eventualmente ajusta sua regra fitossanitária ou se ajustamos nós aqui dentro”, disse.

Tolerância zero

Uma fonte do mercado, que pediu anonimato, afirmou que, no fim de 2025, fiscais chineses identificaram em um navio com soja do Brasil que chegou à China sementes de outros grãos misturadas à carga. Os chineses, então, teriam solicitado uma solução ao governo, que adotou “tolerância zero” a impurezas, como sementes de sorgo, na hora de emitir certificados fitossanitários para cargas que serão exportadas.

Por conta da tolerância zero, uma única semente que não seja de soja em uma amostra de 50 quilos já implica laudo positivo de sementes estranhas e faz com que o fiscal não emita o certificado fitossanitário necessário para que a carga possa ser desembarcada na China, relatou uma fonte do setor.

O impasse com a inspeção já levou tradings de grãos a reduzirem compras de soja nesta semana. A alta do petróleo e as incertezas quanto aos custos do frete também podem ter influenciado os negócios, disse uma fonte.

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