Setor aposta no biocombustível para destravar cadeia da soja e acelerar geração de renda
O biodiesel tem sido cada vez mais discutido no Brasil não apenas como alternativa energética, mas como uma estratégica política industrial com potencial para transformar a dinâmica do agronegócio. A avaliação é de especialistas que defendem o biocombustível como peça-chave para ampliar a agregação de valor na cadeia produtiva de soja, gerar empregos e fortalecer a econômica nacional.
A tese central é que a produção e uso do biocombustível cria demanda para óleo de soja – subproduto do processamento do grão – permitindo ampliar o esmagamento e, consequentemente, a produção de farelo, base da alimentação animal. A explicação é do diretor da Frente Parlamentar do Biodiesel (FPA), João Henrique Hummel.
“Hoje, cerca de 80% da soja processada se transforma em farelo e 20% em óleo. Sem um mercado robusto para esse óleo, há um limite para o crescimento da cadeia. O biodiesel surge, assim, como solução para absorver esse excedente”, diz Hummel.
O movimento Patrimônio do Brasil destaca o potencial de agregação de valor ao longo da cadeia como significativo. Estimativas de profissionais que integram a iniciativa indicam que a exportação de soja em grão gera em média R$ 1 em valor agregado e um emprego por unidade analisada. Quando há processamento em farelo e óleo, esse número sobe para R$ 4 e dois empregos por unidade. Já a conversão em proteína animal pode alcançar R$ 12 em valor agregado e até oito empregos.
Sob essa ótica, o biodiesel atua como catalisador de uma transformação mais ampla, já em curso no Brasil, para que o país passe de exportador de commodities para produtor de bens com maior valor agregado. “O farelo de soja viabilizou a expansão de cadeias como suinocultura e avicultura, tornando essas proteínas mais acessíveis e competitivas”, avalia Hummel. “Com esse movimento, a política pode contribuir para o equilíbrio da balança comercial e ajudar no controle da inflação, ao influenciar o custo de insumos estratégicos”, complementa.
Manifesto produzido pelo Patrimônio do Brasil salienta o impacto da produção de biodiesel para todas as regiões do Brasil. “O biocombustível é produzido em 59 usinas espalhadas por 15 estados brasileiros, podendo levar desenvolvimento para além das capitais, incluindo todas as regiões do país”, diz o documento. Todas têm autorização da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e capacidade para produção de 15,6 bilhões de litros por ano — volume suficiente para suprir uma mistura B22 no país, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).
Os benefícios se estendem também para questões de responsabilidade socioambiental, segundo o manifesto. “O biodiesel compra R$ 9 bilhões em matéria-prima provenientes de 300 mil agricultores familiares”, diz.
Nesse sentido, uma das principais iniciativas para incentivar os pequenos produtores é o chamado Selo Biocombustível Social. De acordo com o Ministério de Minas e Energia, a certificação é concedida às empresas fabricantes de biocombustível, atestando-as como promotoras da inclusão de pequenos produtores na cadeia produtiva.
Considerando-se os efeitos ambientais, a Frente Parlamentar do Biodiesel (FPBio) apresenta estudos que comprovam que a redução na emissão de gases de efeito estufa para a produção de biodiesel varia entre 70% e 94%. “Até agora, 127 milhões de toneladas de CO₂ equivalente já foram evitadas — o equivalente ao plantio de 930 milhões de árvores”, diz a entidade.
O aumento da mistura de biodiesel no diesel para 16% (B16), previsto para março de 2026 pela Lei do Combustível do Futuro, no entanto, está atrasado e sob pressão do setor produtivo. O governo federal mantém a mistura em 15% (B15) enquanto analisa a necessidade de novos testes de segurança, com expectativa de decisão no primeiro semestre.
O setor produtivo, por sua vez, apresenta argumento para que a decisão seja acelerada. “A cada ponto percentual na mistura gera a expansão estimada de 3,59% empregos no setor, e que a cada R$ 1 investido em biodiesel R$ 4,40 retorna à economia”, defendem Abiove e Patrimônio do Brasil.
Para o executivo João Henrique Hummel, o mercado já está pronto e disposto e absorver o biocombustível B16.
