terça-feira, maio 26, 2026

Brasil pode retomar fusões e aquisições no segmento de fertilizantes

Brasil pode retomar fusões e aquisições no segmento de fertilizantes

As fusões e aquisições nos segmentos de fertilizantes e açúcar e etanol caíram à metade em 2025, para apenas seis no total, conforme levantamento exclusivo da KPMG obtido pelo Valor. Foram cinco transações envolvendo fertilizantes no ano passado após nove em 2024, enquanto nas usinas o número caiu de três naquele ano para somente uma operação em 2025, segundo o recorte realizado pela consultoria.

No caso dos fertilizantes, a redução reflete o cenário de custo de capital elevado, margens apertadas no agronegócio e riscos, tanto de crédito quanto de distribuição na cadeia de insumos. A conjuntura não mudou, mas há chances de uma retomada de negócios no segmento em 2026. Para açúcar e etanol, a perspectiva é de um mercado ainda seletivo, porém com tendência de estabilização e gradual recuperação.


Na avaliação da sócia da KPMG e líder setorial do agronegócio da KPMG para Brasil e Américas, Giovana Araújo, o potencial de maior combinação de negócios na área de adubos vem da necessidade de garantir o abastecimento no país e reduzir riscos geopolíticos.

A limitação do transporte pelo Estreito de Ormuz, causada pelo conflito no Oriente Médio, elevou os custos das principais matérias-primas usadas na indústria de fertilizantes, uma vez que a rota é fundamental para o comércio global de adubos. Foi o segundo alerta para o setor, que já havia sido afetado pelo início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022.

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“Em um ambiente geopolítico mais conflituoso e com maior disrupção nos fluxos globais de comércio, a elevada dependência externa brasileira nesse segmento passou a representar não apenas um desafio de custo, mas também de segurança de fornecimento”, afirma Araújo. O Brasil importou 93% de sua necessidade de adubos em 2025, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

O temor sobre o abastecimento de fertilizantes ajudou a destravar a agenda de produção doméstica. A executiva destaca que a Petrobras voltou a investir em nitrogenados, retomando plantas industriais e projetos relevantes no país.

Ao mesmo tempo, acrescenta, grupos nacionais e internacionais vêm ampliando investimentos em potássio, fosfatados e infraestrutura ligada à cadeia de fertilizantes, com apoio crescente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

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“Isso pode acelerar movimentos de M&A e alianças estratégicas no setor — não apenas por consolidação tradicional, mas por uma lógica de verticalização, segurança de abastecimento e redução de vulnerabilidades [externas]”, estima.

Segundo ela, em outra frente, a agenda dos biológicos e organominerais tem importância crescente, o que indica potencial para combinações de negócios também nesse segmento.

Análise da CNA mostra que, entre janeiro e abril de 2026, o volume de fertilizantes nitrogenados e fosfatados importados caiu 4%, para 7,4 milhões de toneladas, na variação anual. Já o valor desembolsado pelo país para importação desses produtos aumentou 16% no período, para US$ 4,3 bilhões, reflexo do conflito no Irã e do custo logístico.

“Não se descarta uma nova queda no curto prazo caso persistam fatores como custo de capital elevado, restrição de crédito no agro, volatilidade de preços de commodities, pressão sobre balanços”, diz Araújo.

“Por outro lado, há vetores importantes de sustentação, como a necessidade estrutural de consolidação em alguns elos da cadeia, busca por ganhos de eficiência operacional e fiscal, crescimento de segmentos ligados à transição energética e sustentabilidade, avanço de tecnologias que estão redefinindo modelos de negócio no agro”, acrescenta.

A sócia da KPMG acredita que uma retomada mais consistente deve ocorrer somente com a combinação de três fatores: redução estrutural do custo de capital; normalização do crédito no agro; e maior visibilidade sobre margens e rentabilidade.

Além disso, a bioenergia e novas rotas de descarbonização podem ser um fator de impulso ao próximo ciclo de fusões e aquisições, assim como a especialização de portfólio (produtos de maior valor agregado), e integração da cadeia agroindustrial.

“Esses vetores indicam que o próximo ciclo tende a ser mais orientado à qualidade de ativos e geração de valor”, afirma.

Nos últimos tempos, a KPMG identificou que o perfil das transações mudou, segundo ela, tanto nas usinas quanto nos fertilizantes. Em vez de grandes aquisições transformacionais, o mercado passou a concentrar-se em transações menores e mais estratégicas, com foco em eficiência e posicionamento de portfólio.

Houve também movimentos de reestruturação e desinvestimento, especialmente em ativos com maior pressão financeira, além de aportes minoritários e parcerias, muitas vezes ligados à inovação tecnológica.

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