segunda-feira, junho 1, 2026

Alho importado ‘barato’ pressiona produtor, e plantio recua no Brasil

Alho importado ‘barato’ pressiona produtor, e plantio recua no Brasil

Pressionados pelo alho importado “barato”, produtores brasileiros têm reduzido o plantio da cultura e buscam saídas para aliviar a concorrência. Eles vão pedir ao governo brasileiro a adoção de medidas para conter a importação de produto da China e da Argentina. O alho dessas duas origens chega ao Brasil com preços abaixo do custo de produção nacional, de acordo com a Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa). Como consequência, para diminuir os prejuízos, produtores preveem reduzir a área plantada em 21% neste ano, para 11 mil hectares.

Nesta semana, a Anapa vai pedir para o Comitê-Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Camex) derrubar o compromisso de preço aplicado ao alho chinês fornecido por quatro empresas. Shandong Trans-High Imp & Exp Co. Ltd., Jining Foreign Trading Co. Ltd., Jining Freen Agri-Produces Co. Ltd. e Shandong Goodfarmer International Trading Co. Ltd, as maiores exportadoras de alho para o Brasil, têm o preço mínimo fixado em US$ 15,80 por caixa de 10 quilos. Para outras empresas da China, há tarifa antidumping de US$ 7,80 por caixa.


“O nosso custo de produção é de US$ 25 por caixa. Esse compromisso de preço desestimulou o plantio no Brasil”, afirma Rafael Corsino, presidente da Anapa. Segundo ele, a entidade vai pedir o fim do compromisso de preço, com cobrança da sobretaxa para todas as importações da China.

Rafael Corsino, presidente da Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa). — Foto: Divulgação
Rafael Corsino, presidente da Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa). — Foto: Divulgação

Ainda em junho, a entidade deve solicitar ao governo medidas antidumping contra o alho argentino. “A Argentina exporta o alho abaixo do custo de produção. O custo na Argentina é de US$ 18 por caixa e o alho chegou no Brasil a US$ 12,50”, diz Corsino. De acordo com a entidade, o país vizinho teria subfaturado as exportações de alho para o Brasil nos últimos seis anos.

- Advertisement -

O Brasil consome aproximadamente 320 mil toneladas de alho por ano, mas produz 170 mil toneladas, segundo a Anapa. A maior parte da produção fica em Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Do alho importado, 60% vinham da Argentina e 36% da China até o ano passado.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), de janeiro a abril, as importações de alho caíram 5,4% em relação ao mesmo período de 2025, para 62,4 mil toneladas. Em valor, houve queda de 15,9%, para US$ 77 milhões, o equivalente a uma média de US$ 12,34 por caixa.

“Esse aumento da importação culminou em prejuízo de R$ 5,50 por quilo vendido. O antidumping é necessário já”, defende Franchielli Motter, presidente da Associação dos Produtores de Alho do Rio Grande do Sul. Segundo ela, produtores gaúchos devem reduzir a área de 850 hectares para 750 hectares em 2026. “Eu mesma plantei 16 hectares no ano passado e agora vou plantar 12 hectares”, diz.

- Advertisement -

A região Sul colhe no fim do ano o alho plantado em junho e julho. A safra é vendida no primeiro semestre, concorrendo diretamente com o alho argentino. Sudeste e Centro-Oeste fornecem alho ao mercado no segundo semestre, competindo sobretudo com o produto da China.

Produtor de alho em São Marcos (RS), Jaime Menegon, plantou 14 hectares em 2025, mas neste ano vai reduzir para 4 hectares. “Tive prejuízo de R$ 5 por quilo. Já vi várias crises, mas nunca como esta”, lamenta. O plano de Menegon é concentrar a produção em área própria e devolver as arrendadas.

O excesso de oferta de alho importado fez Everson Tagliari, produtor em Curitibanos (SC), vender a colheita abaixo do custo de produção na última safra. “Um hectare de alho custa de R$ 120 mil a R$ 130 mil [para ser produzido]. Tivemos R$ 80 mil de receita por hectare”, conta. Tagliari vai reduzir a área de 10 hectares para quatro hectares neste ano e nos outros seis hectares planeja plantar pastagem e arrendar para pecuaristas.

Everson Tagliari, produtor de alho em Santa Catarina — Foto: Divulgação
Everson Tagliari, produtor de alho em Santa Catarina — Foto: Divulgação

José Barreto, diretor-presidente da Akio Produtos Alimentícios, principal distribuidora de alho roxo em São Paulo, visitou recentemente produtores na região de São Gotardo (MG), onde a situação se repete. “A área plantada foi reduzida porque o custo está muito alto e a concorrência é desleal”, afirma Barreto.

A empresa vende para o varejo alho em pasta (triturado), frito e temperos à base de alho. Em 2025, a Akio produziu 1,3 mil toneladas de alho descascado e 100 toneladas de alho in natura. Para este ano, a expectativa é manter o volume de vendas, mas aumentando a oferta de produtos de maior valor agregado. Em março, a companhia lançou o alho roxo em pó, feito com produto nacional.

Últimas Notícias

Mais notícias