quarta-feira, julho 8, 2026

Pressa na colheita do milho aumenta risco de aflatoxina, alerta especialista

Pressa na colheita do milho aumenta risco de aflatoxina, alerta especialista

Falta de estrutura de secagem vira gargalo para a safra de milho

A cada safra, o produtor de milho enfrenta o mesmo dilema: colher rápido para garantir o plantio da cultura seguinte ou esperar o ponto ideal de umidade e arriscar perder a janela climática. Essa pressa, cada vez mais comum no campo brasileiro, tem um preço — e ele aparece depois, no secador, no silo e, em casos mais graves, na qualidade final do grão. É o que descreve Otavio Matos, gerente operacional da Cycloar RS/SC na área de pós-colheita e conservação de grãos, ao analisar um problema que, segundo ele, cresce junto com a produtividade do país.


No milho, esse acordo ainda não existe. E o motivo, explica Matos, tem menos a ver com falta de consenso e mais com a própria dinâmica da lavoura moderna. Máquinas de plantio cada vez mais rápidas permitem que o produtor semeie grandes áreas em poucos dias, aproveitando a melhor janela climática. O problema é que essa mesma pressa se repete na hora de colher — e é aí que o sistema começa a travar. Colhedoras mais velozes despejam nas unidades de recebimento um volume maior de grãos em menos tempo, muitos deles ainda com umidade elevada.

Quando esse índice ultrapassa os 14%, alguém precisa pagar a conta da secagem — seja a cooperativa, o cerealista ou o próprio produtor. Muitas indústrias, para não perder o fornecimento, acabam recebendo o milho com 15% ou até 16% de umidade sem repassar o custo extra, segundo Matos. Absorvem o problema para garantir a matéria-prima.

- Advertisement -

Mas há uma pressão ainda maior por trás dessa equação: a segunda safra. Produtores que plantam soja seguida de milho — ou que aceleram a colheita do milho para viabilizar o plantio seguinte — têm entregado grãos com 26%, 28%, às vezes 30% de umidade, relata o entrevistado. É um nível considerado crítico para qualquer sistema de secagem. “Quando esse milho chega lá com 28, 30, 26 no sistema de secagem, é um problemão”, descreve Matos, explicando que o custo para estabilizar esse grão até a faixa segura de 13% a 14% dispara.

O motivo é físico: quanto mais úmido o milho, mais tempo ele precisa passar no secador até que a umidade migre do interior do grão para a casca e seja evaporada. Se esse processo é forçado para dar vazão à demanda, o resultado aparece na forma de grãos com cheiro de fumaça ou trincados — sinais de perda de qualidade que Matos classifica como um problema crescente no setor.

Por trás desse gargalo operacional, Matos aponta um problema estrutural maior: o Brasil não tem secadores nem silos suficientes para acompanhar o crescimento da produção. O investimento em uma unidade de secagem é considerado relativamente alto, o que trava a expansão dessa estrutura justamente no momento em que a demanda por milho — para ração e etanol — segue em alta.

- Advertisement -

Diante desse cenário, cresce entre os produtores o interesse por construir suas próprias unidades armazenadoras. As vantagens, segundo Matos, vão além de reduzir custo com secagem: incluem melhores janelas de comercialização, menor gasto com frete — já que se evita transportar água junto com o grão — e ganhos específicos para quem trabalha com integração lavoura-pecuária.

O obstáculo, porém, é o crédito. Segundo o entrevistado, o último Plano Safra trouxe um corte de quase 30% nos recursos destinados a investimentos em infraestrutura, e os juros elevados da Selic têm feito muitos produtores adiarem a decisão, na expectativa de uma queda futura da taxa. Some-se a isso um detalhe pouco discutido: boa parte dos produtores já opera no limite de crédito disponível em seu CPF, comprometido com a compra de máquinas e tratores — o que deixa pouco espaço para financiar também a armazenagem.

Há ainda um erro de projeto, na avaliação de Matos: a tendência do mercado é construir silos cada vez maiores, para diluir o custo unitário do investimento. Ele discorda dessa lógica. Defende que silos menores permitiriam segregar o produto por qualidade — e, em muitos casos, concluir ali mesmo a secagem do grão, com tecnologias de pré-secagem que estabilizam o milho entre 16% e 18% no secador antes de transferi-lo ao silo, onde a secagem é finalizada por aeração. Sistemas de equilíbrio higroscópico, segundo o entrevistado, têm mostrado bons resultados de qualidade nesse processo.

É que a umidade elevada dentro do silo aumenta a atividade de água do grão — e isso favorece a proliferação de fungos produtores de aflatoxinas. Ao contrário de outros problemas de qualidade, a contaminação por aflatoxina, uma vez instalada, não sai mais da cadeia alimentar, alerta Matos. Para a indústria de ração, desativar essa toxina tem custo alto, e o produto perde valor rapidamente.

Diante de um quadro com tantas frentes em aberto, Matos defende que a solução passe por várias ações combinadas: mais planejamento no escalonamento do plantio, para evitar que toda a safra amadureça — e precise ser colhida — ao mesmo tempo; tecnologias de secagem combinadas entre secador e silo; e projetos de armazenagem menos focados em reduzir custo de instalação e mais atentos ao dimensionamento correto da aeração. Ele também defende uma articulação entre Conab, Ministério da Agricultura, federações e as próprias indústrias de milho, ração e etanol, além de uma possível liberação de linhas de crédito específicas para investimento em armazenagem — hoje, na visão do entrevistado, um dos principais gargalos represados do agronegócio brasileiro.

Últimas Notícias

Mais notícias