Especialista explica como é possível e aponta pelo menos duas possibilidades para o que ocorreu
Colher frutas diferentes em uma única árvore cultivada no quintal de casa parece, à primeira vista, inimaginável, mas acredite: é possível. A curiosidade chamou a atenção da empresária Kely Clever, de Irineópolis (SC), e viralizou ao ser compartilhada nas redes sociais.
Em entrevista à Globo Rural, ela conta que a família adquiriu diversas mudas frutíferas em 2022, entre ameixa, uva e pêssego, para plantar no quintal. Dois anos depois, veio a surpresa: uma das árvores passou a produzir duas das variedades ao mesmo tempo.
“Como o nosso espaço era pequeno, meu marido retirou as uvas e levou para a propriedade da minha sogra. As demais mudas seguimos cultivando normalmente, até que, em 2024, percebemos que uma das plantas tinha pêssego e ameixa. Muita gente comentou que quem fez o enxerto não fez certo e que, por isso, nasceram as duas frutas. Mas, para a gente, deu muito certo, né? Imagina que legal ter duas frutas no mesmo pé”, diz.
O primeiro processo de frutificação resultou em poucos frutos, consumidos pelas aves. Em 2025, porém, a quantidade aumentou consideravelmente, e todos os pêssegos e ameixas foram colhidos. “As frutas amadureceram em diferentes momentos do mês de dezembro e estavam muito saborosas”, conta Kely.
Qual a explicação?
De acordo com Newton Alex Mayer, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Clima Temperado), existem duas possibilidades:
Foram feitos dois ou mais enxertos com gemas de diferentes cultivares de uma mesma espécie ou de espécies distintas do mesmo gênero em um único porta-enxerto;
Foi realizada a enxertia de uma ameixeira sobre um pessegueiro e, com o passar tempo, surgiu uma brotação no porta-enxerto originada abaixo da enxertia e não foi removida.
O especialista completa que o primeiro caso, conhecido como enxertia múltipla, não é adotado em pomares comerciais por não ser interessante do ponto de vista agronômico, além de dificultar o manejo, o controle de pragas e doenças e a colheita. A técnica é mais comum em pomares domésticos. Já o segundo, que é quando surgem brotos no porta-enxerto, torna-se mais viável e também frequente.
Outra diferença entre as técnicas pode ser observada no crescimento da planta. Quando a enxertia é múltipla, é possível que uma ou mais espécies utilizadas não se desenvolvam por diferentes razões. Assim, aquelas com maior vigor dominam a planta.
O episódio registrado pela empresária de Irineópolis (SC) envolveu apenas pêssego e ameixa, mas o conceito pode ir além. É possível, por exemplo, ter uma planta produzindo diversas variedades de frutas ao mesmo tempo.
“Tanto para a enxertia simples como para múltipla serem tecnicamente compatíveis, elas devem ser realizadas com espécies que sejam, obrigatoriamente, do mesmo gênero. O pessegueiro e a ameixeira são do gênero Prunus e, portanto, a enxertia é válida”, explica.
Em 2025, a unidade da Embrapa Clima Temperado realizou a técnica de enxertia múltipla para fins didáticos com o porta-enxerto da cultivar de pessegueiro Flordaguard, conhecido pelas folhas vermelhas, e outras sete variedades de frutas:
- BRS-Citrino (pêssego redondo de polpa amarela para indústria);
- BRS-Kampai (pêssego redondo de polpa branca para mesa);
- BRS-Mandinho (pêssego chato de polpa amarela para mesa);
- BRS-Dani (nectarina redonda de polpa branca para mesa);
- Amarelinha (ameixa de polpa amarela);
- Letícia (ameixa de polpa amarela);
- Pluma-7 (ameixa de polpa roxa).
Após nove meses, em outubro do ano passado, a planta desenvolveu as primeiras unidades de pêssego redondo, pêssego chato e nectarina.


