segunda-feira, março 2, 2026

Milho, carnes, ureia: como o conflito entre EUA e Irã impacta o agronegócio brasileiro

Milho, carnes, ureia: como o conflito entre EUA e Irã impacta o agronegócio brasileiro

A escalada do conflito no Oriente Médio após os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã deve elevar os custos de produção e da logística de exportação do agronegócio brasileiro. Segundo analistas ouvidos pelo Valor, apesar de não haver previsão de quebra nos embarques de grãos e carnes para a região, a necessidade de novas rotas — com o fechamento do Estreito de Ormuz — , e a provável alta do petróleo e do dólar devem afetar os custos dos exportadores.

O Oriente Médio é um importante destino das carnes de frango e bovina do Brasil, e também tem unidades de empresas como MBRF e JBS. A região é ainda uma grande importadora de milho brasileiro.


“O mundo hoje não é igual ao que era na sexta-feira”, diz o analista sênior da T&F Consultoria, Luiz Carlos Pacheco. Na avaliação dele e de outros especialistas, o conflito não deve se alongar. “A guerra entre Estados Unidos e Irã afeta o mundo todo porque todo mundo depende do petróleo. É um conflito muito grande para se estender além de 15 dias”, afirma.

O diretor da Brandalizze Consulting, Vlamir Brandalizze, tem opinião semelhante e acredita em impacto temporário no preço das commodities agrícolas e alta nos custos com fertilizantes e logística. “O impacto dessa guerra se dá de duas maneiras. Primeiro, na área de fertilizantes, porque o Irã é um grande fornecedor de ureia para o mercado global e para o Brasil. E também existe um uma expectativa de valorização em dólar e isso impacta no custo”, avalia.

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Em 2025, o Irã exportou 184,7 mil toneladas de ureia ao Brasil, o equivalente a US$ 66,8 milhões e o principal produto vendido pelo país persa ao mercado nacional.

Outro fator que pode elevar os custos na agropecuária é que o Irã é a principal fornecedor do gás natural para produção de fertilizantes de países que exportam nitrogenados ao Brasil, como Catar, Omã e Nigéria, diz a analista de mercado de fertilizantes da Safras&Mercado, Maísa Romanello. “Esses países recebem o gás natural vindo do Irã para produção de ureia e, caso haja interrupção do fluxo de gás natural, eles serão afetados com menor disponibilidade de matéria-prima”, afirma.

O Irã é também o maior destino do milho brasileiro e importou 9 milhões de toneladas em 2025, 23% do total exportado pelo Brasil. Por ora, a expectativa é de que essa demanda não seja afetada, pois a maior parte dos embarques ocorre a partir de julho. “Provavelmente até o meio do ano, quando o Brasil volta a colher a safrinha e exportar milho, essa questão do Irã já vai estar resolvida”, prevê Brandalizze.

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Na região estão os Emirados Árabes Unidos, maior importador de carne de frango do Brasil, com 480 mil toneladas adquiridas em 2025. De carne bovina, foram 223,9 mil toneladas enviadas ao Oriente Médio, ou 6,5% do total exportado, segundo o Agrostat, sistema de estatísticas do Ministério da Agricultura.

Procurada, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) disse que junto com suas associadas mapeia e monitora “os pontos críticos à logística na área influenciada pelo conflito. Neste momento, o setor analisa rotas alternativas que foram utilizadas em outras ocasiões de crises na região”.

A Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec) afirmou que tem “acompanhando o desenrolar da situação, mas, por enquanto, não temos nenhuma informação das empresas sobre impactos concretos.”

A MBRF, que tem unidades na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes, informou “que está priorizando a segurança e a integridade dos seus colaboradores no Oriente Médio e que suas operações não foram afetadas. A companhia acionou seu plano de contingência para garantir o abastecimento”. A JBS disse que não comentaria.

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